domingo, 6 de março de 2016


Diante do populismo!

Prof. Geraldo Filho (05/03/2016)

Na manhã dessa sexta-feira, logo cedo, fui avisado por um telefonema amigo sobre a missão desencadeada pela Polícia Federal, abrindo a 24ª fase da Operação Lava-Jato, que cumpriu mandado de “condução coercitiva” para o ex-presidente Lula.
Dado a importância política que o fato jurídico tomaria, sacrifiquei meu sagrado compromisso com a academia (não universitária, mas de malhação, para mim tão importante quanto à primeira!) e postei-me diante da televisão e do computador para acompanhar os desdobramentos.
Para quem desde 2003, nas salas de aula universitárias, luta, geralmente sozinho, contra os tempos trevosos que se abateram sobre o país, comecei a alimentar sensação de alívio e esperança de que finalmente as brumas possam se dissipar.
Lembrei-me de uma aluna de Administração de Empresas, que por volta de 2009 – não me recordo precisamente o ano, nem do nome e tampouco da fisionomia – numa exposição sobre crescimento e desenvolvimento econômico, cujo parâmetro era os Estados Unidos, perguntou-me por que eu admirava e utilizava como exemplo os EUA. Na sua cabeça de militante petista o Brasil de Lula era que havia encontrado o caminho do crescimento econômico com desenvolvimento social “sustentável” (palavra da moda e de bom tom no mundinho alienado e “politicamente correto”dos esquerdistas e porra-loucas!) e que os americanos estavam superados, caminhando para a decadência. 
Mal sabia a aluna que um país para crescer e se desenvolver necessita de fundamentos sólidos, como responsabilidade fiscal (equilíbrio entre receita-despesa pública); combate permanente à inflação; taxa de câmbio que reflita a realidade da relação exportações-importações; privatizações, etc. Evidentemente que lhe ensinei tudo isto em aula, mas a cabeça de um dogmático é por definição anticientífica, imune ao conhecimento e à realidade empírica.
Os fundamentos econômicos lançados por FHC, com o Plano Real, frutificaram no período em que Lula assumiu a presidência, a partir de 2003, época na qual um fator externo favoreceu os países exportadores de commodities (minerais e agrícolas), dentre os quais o Brasil: Índia e China, cujas populações somam mais de 2,6 bilhões de almas, ostentavam crescimento da ordem de 7 a 10% de PIB ao ano, o que implicava consumo galopante de petróleo, minérios, carne de frango e boi, soja, café, açúcar, etc. O Brasil, nesse cenário, bombou!
No entanto, a vida é cruel para quem afronta a realidade, principalmente quando isto significa subverter os fundamentos econômicos, pois para que se sustentem ao longo do tempo necessitam de regulação permanente, o que quer dizer que as reformas começadas com FHC deveriam ter tido continuidade com Lula.
Com efeito, reformas fundamentais como a da previdência (as pessoas vivem mais e, portanto, têm de trabalhar mais e contribuir mais: esse é o preço a pagar por se ganhar mais anos para se viver); a trabalhista (para flexibilizar a arcaica legislação trabalhista, que onera a folha salarial das empresas, o que significa menos postos de trabalho); a tributária (para amenizar a escandalosa carga de impostos que recai sobre o consumo das pessoas e os custos das empresas) e a do Estado (para diminuir a paquidérmica máquina burocrática estatal, ineficiente e perdulária, cujo lema informal é: “criar dificuldades, para vender facilidades”, ou seja, corrupção), nunca foram sequer tentadas. Como um oportunista que é, Lula ficou sentado sobre a popularidade que o surto de crescimento que o país viveu na primeira década do século XXI lhe deu, e o seu partido tranquilamente arquitetou a tomada do Estado ao aparelhar suas instituições nos Três Poderes.
Como resultado, quando modificou o cenário internacional depois de 2008 com a crise econômica que abalou fortemente a China e outros grandes compradores de matérias-primas o Brasil perdeu o rumo! Com os preços micados e em busca da popularidade “populista” adotou-se a “Nova Matriz Econômica”, que na verdade nada tinha de nova, pois se tratava do velho intervencionismo estatal das esquerdas, que remonta a uma leitura distorcida de Lorde Keynes feita no Brasil por Celso Furtado, resumindo-se a conceder crédito fácil para o consumo e as empresas via bancos públicos e fazer programas sociais: o caminho estava aberto para se subverter os fundamentos econômicos, duramente conquistados com o Plano Real.
De lá para cá o país degradou-se em todos os níveis e com o tombo que a Petrobrás levou, por ter sido usada como instrumento de política econômica (o governo manteve artificialmente os preços da gasolina e do diesel baixos, mesmo que o preço do barril de petróleo, cotado em dólar, despencasse em todo o mundo, o que acarretou prejuízos astronômicos para a empresa, proibida de elevar os preços para compensar os custos) e sangrada pela parasitária máquina petista de financiamento de campanhas eleitorais, enriquecimento ilícito e compra de apoio político no Congresso, saltou aos olhos o tamanho escabroso do desastre.
O problema é que nossas instituições sociais, dentre as quais as educacionais, as políticas e jurídicas, não são e nunca foram sólidas, característica que persiste desde o início do período republicano. Se fossem, Lula jamais teria sido presidente da república, sequer teria alimentado essa pretensão, por três razões simples: um povo educado e culto não votaria em um despreparado intelectual para desempenhar as funções que o cargo exige; um povo politicamente calejado identificaria na retórica lulista da “elite” contra o “povo” manifestação do populismo autoritário latino-americano, do tipo Vargas, Perón, Chávez e Castro; um povo que tem no judiciário a espinha dorsal de sua sociedade não deixaria uma organização criminosa assumir o poder do Estado.
O resultado imediato da debilidade das instituições é a dificuldade e a demora de uma sociedade enorme, de mais de 200 milhões de indivíduos, se livrar de um pequeno grupo que manipula alguns milhares (pagos a soldo por sindicatos) e torna o país refém dos seus interesses escusos. Em outro artigo, escrevi que os brasileiros, por não terem muita afinidade com a matemática, não ficam estarrecidos com a quantidade de mortes por homicídio/ano em torno de 56 mil, números de guerra em qualquer outra sociedade mais atenta. Agora, somando-se a isto, percebo a absoluta falta de sentido de tempo que acomete nosso povo, que não percebe o mal terrível que a que está submetendo seus filhos e, possivelmente, a geração dos seus netos.
Nos EUA, essa organização criminosa, reiteradamente assim classificada pelo juiz decano do Supremo, Ministro Celso de Mello, já estaria toda na cadeia. Eis, pois, uma das razões pelas quais este país sempre será um parâmetro de comparação para toda sociedade livre.
Antes de encerrar, a minha aluna petista, se um dia ler este artigo, deveria assistir à entrevista do economista Chico de Oliveira (velho fundador do PT), que no programa Roda Viva (TV Cultura) revelou as razões que o afastaram do partido e o porquê ele acha Lula um mau caráter. Aliás, Daniel Aarão Reis vai na mesma direção de Chico de Oliveira, em entrevista ao Painel (Globonews), ele confessa que os professores universitários que ajudaram a criar o PT fecharam os olhos ante os primeiros indícios de que Lula não era o líder que eles imaginavam, porém se calaram, pois estavam na fase da consolidação do partido e ele representava uma liderança popular, um operário sindicalista que vinha de baixo e parecia ser a realização do sonho “basista” do marxismo. Pode, professores universitários como estes??!! Só no país da jabuticaba.



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